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DCD Connect 2026 e The Xcelerated Compute Show

Nos dias 4 e 5 de novembro, estive no Sheraton WTC, em São Paulo, acompanhando o DCD Connect Brasil 2026 e o The Xcelerated Compute Show. Foram dois dias de discussões sobre energia, infraestrutura para inteligência artificial, refrigeração e novos modelos de negócio para o setor.

O evento reuniu mais de 3,2 mil participantes, 170 palestrantes e 160 expositores. Além dos painéis tradicionais do DCD Connect, a programação contou com o Investment Forum e um espaço dedicado à computação acelerada, com a NVIDIA como lead partner.

Energia: o principal gargalo da IA

Um dos debates mais relevantes foi direto ao ponto: sem energia não há IA. Um dado apresentado durante o painel chamou atenção: a construção de um grande data center pode levar de 2 a 4 anos, enquanto a expansão da infraestrutura elétrica necessária pode levar de 6 a 8 anos.

Os pedidos de conexão, antes na faixa de 10 ou 20 MW, já chegam a 200 MW, e há projetos discutindo demandas de até 1 GW. Ou seja, o desafio não está apenas em comprar GPUs: é preciso conseguir energia para mantê-las operando.

A Ascenty apresentou o exemplo de Sumaré, onde investiu cerca de R$ 200 milhões em uma linha própria de 35 km para conectar seu campus a uma subestação. A discussão sobre permitir maior participação dos operadores na construção da infraestrutura elétrica merece atenção.

Outro ponto interessante foi a possibilidade de utilizar baterias, UPS e geradores dos data centers como recursos de flexibilidade para a rede elétrica, ajudando a reduzir picos de consumo. Se houver evolução regulatória, ativos que hoje ficam grande parte do tempo em espera poderão ter um papel adicional.

Também ficou claro que nem toda carga de IA precisa estar perto dos grandes centros consumidores. Treinamento e determinadas aplicações de inferência podem operar em regiões com energia e conectividade disponíveis. Isso abre espaço para novos polos fora do eixo Rio–São Paulo.

O mapa dos investimentos: Ceará em destaque

O painel “Novos mercados, novos data centers” reuniu representantes do Governo do Ceará, IFC, NextStream, Scala Data Centers e CBRE. A presença do Ceará na discussão não foi por acaso: o estado combina disponibilidade energética, conectividade internacional e projetos relevantes de infraestrutura digital, especialmente na região do Pecém.

Uma ausência que me chamou atenção foi Santa Catarina. Temos operadores, conectividade e uma posição interessante no Sul do país, mas ainda precisamos avançar para entrar com mais força nesse mapa de investimentos. Vejo nisso um desafio, mas também uma oportunidade.

Cooling: não existe uma solução única

Com o aumento da densidade das GPUs, a refrigeração deixou de ser um detalhe de projeto. Entre as alternativas discutidas, três tecnologias se destacam:

  • Rear Door Heat Exchanger (RDHx): trocador de calor na porta traseira do rack. Pode ser um caminho para ampliar a densidade em salas existentes, sem uma reforma completa.
  • Direct-to-Chip: líquido circula por cold plates instaladas diretamente nos componentes, como CPUs e GPUs. É indicado para ambientes de alta densidade e HPC.
  • Immersion Cooling: servidores submersos em fluido dielétrico. É uma alternativa para cenários de densidade e exigência térmica extremas.

Como referência, a refrigeração a ar costuma atender racks na faixa de 10 a 15 kW, enquanto soluções líquidas podem chegar a densidades próximas de 100 kW por rack, conforme a arquitetura. Para quem já opera salas convencionais, a porta traseira pode ser um passo intermediário antes de partir para soluções mais complexas.

AI Factory por assinatura

No The Xcelerated Compute Show, a Positivo apresentou a linha IA Box, baseada no modelo Hardware as a Service (HaaS): em vez de comprar toda a infraestrutura, o cliente contrata uma mensalidade e mantém o equipamento em seu próprio ambiente.

Os valores de referência exibidos no evento, para contratos de 60 meses, foram:

  • Essential: R$ 2 mil a R$ 3 mil/mês, com ASUS Ascent GX10.
  • Core: cerca de R$ 23 mil/mês, 2 GPUs e até 25 usuários.
  • Pro: cerca de R$ 45 mil/mês, 4 GPUs e até 50 usuários.
  • Enterprise: cerca de R$ 60 mil/mês, 6 GPUs e até 250 usuários.
  • AI Factory: acima de R$ 350 mil/mês, com 4 ou mais GPUs e até 500 usuários.

A proposta chama atenção por ocupar um espaço entre consumir IA por APIs de hyperscalers e investir milhões em um cluster próprio. Para empresas que precisam manter dados e processamento sob seu controle, mas preferem evitar um CAPEX elevado, esse modelo pode fazer sentido.

Cloud, on-premise e o modelo híbrido

Outro debate abordou como as empresas podem manter o controle em ambientes que combinam cloud pública, infraestrutura própria e modelos híbridos.

Na prática, a decisão não deveria ser simplesmente cloud ou on-premise. Cada workload precisa estar no ambiente mais adequado, considerando custo, desempenho, segurança, latência, disponibilidade e requisitos regulatórios. O desafio é manter governança e visibilidade sobre toda essa operação.

O que fica do DCD Connect 2026

Minha principal impressão é que a expansão da inteligência artificial está trazendo o debate de volta aos fundamentos da infraestrutura. Antes de falar em grandes clusters, precisamos resolver energia, refrigeração, conectividade e capacidade física.

Três pontos resumem o que levo do evento:

  • Energia é estratégica: precisa entrar no planejamento desde o início, pois pode definir onde e quando um data center será viável.
  • Cooling precisa acompanhar a densidade: a tecnologia deve ser escolhida conforme o workload, a infraestrutura existente e o TCO.
  • IA como serviço abre novas oportunidades: existe mercado entre a API de terceiros e o investimento em infraestrutura própria.

Estamos entrando em uma nova fase para os data centers. A inteligência artificial não muda apenas os servidores: muda o planejamento de energia, refrigeração, conectividade, armazenamento e os próprios modelos de negócio.

O Brasil tem potencial para ocupar um espaço importante nessa transformação. A questão é se conseguiremos transformar esse potencial em infraestrutura digital, com energia e capacidade disponíveis onde o mercado precisa.

Até o próximo evento, pessoal!

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